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em 01 setembro 2014

O ser humano não é naturalmente monógamo. Nós apenas aprendemos a ser (ou a tentar ser), pois passaram a vida inteira nos dizendo que devemos ser assim, não importa o quanto isso custe em termos de frustração, repressão, sofrimento pessoal e sofrimento alheio.




A monogamia fazia algum sentido numa época em que trepar era quase sinônimo de engravidar. A mulher precisava de um parceiro fixo que a ajudasse a criar os filhos. O homem, por sua vez, cobrava exclusividade porque não estava disposto a sustentar filhos feitos por outros homens. Esse arranjo era útil economicamente e a igreja – um dos maiores agentes econômicos da antiguidade – se encarregou de instituí-lo, formatando o casamento monogâmico do modo o conhecemos até hoje. Fez isso com extrema competência, por sinal.



Claro que alguma coisa mudou, mas estamos ainda muito longe de superar essa intromissão do social em nossa vida íntima. Fidelidade e traição, mais do que palavras, continuam sendo instrumentos de dominação e restrição à liberdade, por um lado, e de frustração e sofrimento, por outro. Quanto tempo perdido no esforço vão de controlar o outro. Quanta angústia inútil pelas escapadas reais ou imaginárias do parceiro. Ainda há quem mate e quem morra por essas bobagens.



Eu não acredito em fidelidade, mesmo sabendo que ela existe. Na maioria dos bons casamentos, fidelidade é algo que um dos parceiros faz de conta que pratica e o outro faz de conta que acredita. As exceções são exatamente isto: exceções. Mas que fique bem claro: eu não sou a favor da traição. Sou, isto sim, a favor da liberdade.

O conceito de fidelidade é estreito, intransigente e, de certo modo, mesquinho. Ser fiel é submeter-se a um padrão (um conjunto de regras, um sistema de idéias etc.) que não pode ser questionado. Portanto, é complicado (eu quase escrevo impossível) ser fiel a uma pessoa. No máximo, consegue-se ser fiel a um acordo tácito ou explícito (conjunto de regras, portanto) que regula a relação mantida com alguém. Proponho que, em lugar de perseguirmos essa tal fidelidade, nos dediquemos a algo muito mais nobre: a lealdade.



Ao contrario da fidelidade, que é algo imposto de fora para dentro, a lealdade é construida de dentro para fora. A fidelidade é uma regra; a lealdade é um valor. A fidelidade limita; a lealdade liberta. Por definição, a fidelidade só pode ser exercida em relação a uma única pessoa. A lealdade, não. É perfeitamente possível ser leal com várias pessoas ao mesmo tempo.



Uma relação baseada na fidelidade é, a priori, uma relação fechada. O pacote de promessas e expectativas já vem pronto. Se a base do relacionamento for a lealdade, a relação pode assumir o formato que o casal quiser.

É fácil construir uma relação baseada na lealdade e na liberdade? Claro que não. É preciso, antes de tudo, ter elevada auto-estima e maturidade emocional para aceitar o fato de que é possível ser feliz sozinho. Porque é o medo de ficar sozinho que nos leva a aceitar o tal PACTO DE EXLUSIVIDADE SEXUAL ao iniciarmos um relacionamento com alguém. O momento é crítico, eu sei. É a fase do enamoramento, na qual somos reféns da paixão, mas, acredite, é este o melhor momento para propor um pacto diferente, baseado na lealdade, na cumplicidade e na liberdade. Obviamente, é possível rever o pacto de exclusividade a qualquer tempo, mas vai ficando cada vez mais difícil à medida em que o relacionamento avança e quando a paixão acaba (sim, ela sempre acaba) a exclusividade pode virar um fardo difícil de carregar. Quem carrega sabe: a sensação, muitas vezes, é a de estar se sacrificando pelo outro. E esse sacrifício será cobrado, consciente ou inconscientemente, de uma forma ou de outra.



Quando se constroi um relacionamento baseado na lealdade e na liberdade a figura da traição desaparce, pois não há o que ou a quem trair. Isso não significa que cada um vai sair por aí, trepando a torto e a direito, sem que isso provoque impactos no relacionamento. O que se pretende é dar às eventuais experiências fora do casamento o peso que elas realmente têm.



Essa história de que trepar fora do casamento é sintoma de que a relação não vai bem é puro mito. Pensar que “cumprir com as obrigações conjugais” todos os dias vai deixar o parceiro tão satisfeito que ele ou ela não desejará mais ninguém é o cúmulo da idiotice. Variar é bom e todo mundo gosta. Não significa que a pessoa não está mais a fim de manter aquele relacionamento. O casal emocionalmente maduro sabe que o que os mantém juntos é muito mais do que sexo. O sexo é apenas um dos componentes e, muitas vezes, nem é o componente mais importante.

Você deve estar pensando: e se o meu parceiro ou parceira se apaixonar pela outra pessoa? O risco existe, claro. Mas existe também nos relacionamentos fechados e eu arrisco afirmar que, neste caso, é maior que nos relacionamentos abertos. Mesmo porque, bicho criado solto não tem de onde fugir.



Experimente!





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